17.09—30.10.26 * PARASITU * Alexandre Brandão e C. L. Salvaro *
17.09—30.10.26 * PARASITU * Alexandre Brandão e C. L. Salvaro *
orlando apresenta PARASITU, exposição-instalação dos artistas Alexandre Brandão e C. L. Salvaro.
O que começou em fevereiro deste ano como um incipiente traço escuro e opaco no vidro da janela de orlando — intervenção de Alexandre Brandão — seguiu em alastramento silencioso ao longo dos meses, atraindo um segundo organismo para o interior do espaço. Em uma dinâmica de eventuais contaminações mútuas, as esculturas, peças e intervenções dos dois artistas passam a parasitar o próprio espaço e também umas às outras. A partir de materiais sintéticos que mimetizam ou confrontam a natureza, a mostra ressoa com o pensamento da antropóloga Anna Tsing sobre as "margens indomáveis", ao investigar como a vida, a matéria e novas formas de simbiose emergem e se reconfiguram apesar das ruínas do capitalismo, numa espécie de “terceira natureza”, como nomeia a autora.
Exposição: PARASITU – Alexandre Brandão e C. L. Salvaro
Abertura: 17.09.2026, quinta, das 18h às 21h
Visitação: até 30.10.2026
Horários: Terças e quintas, 14h–18h, ou por agendamento via DM no Instagram @ooooooorlando ou e-mail info@orlando.art.br
Endereço: orlando | Al. Casa Branca, 35, sala 711 – São Paulo, SP
Sobre os artistas
Alexandre Brandão (Belo Horizonte, 1979)
Através de linguagens como desenho, objeto e escultura, sua obra resulta em formas que flutuam entre o estranhamento e a familiaridade, utilizando-se de matérias-primas naturais e do mundo urbano-industrial. Sua prática combina experimentação, temporalidade e processos da natureza e da cultura com métodos artesanais de produção.
Tem participado de exposições incluindo “Quando atitudes se tornam escola” (MG, 2025); “Olhe bem as montanhas” (SP, 2024); “Lorem ipsum - Objetos nunca morrem” (SP, 2024); “Quando for sair lá fora” (BH, 2023); “Torso Pedra” (SP, 2021); “Efeito Tyndall” (SP, 2020); “Dear Amazon: Korea x Brazil” (Coréia do Sul, 2019); “In Memoriam” (RJ, 2017); “66º Salão Paranaense” (PR, 2017); “60 Anos Museu + Residência” (MG, 2017); “Bolsa Pampulha 2015/2016” (MG, 2016); “Some False Moves” (EUA, 2015); “Taipa Tapume” (SP, 2014); “15º, 17º e 18º Festival Internacional SESC Videobrasil” (SP, 2005, 2011 e 2013); “Bienal de Filmes de Arte de Colônia” (Alemanha, 2005). Realizou as exposições individuais “Novas Naturezas” (BH, 2025); “Fardo Mole, Penca Rama” (SP, 2024); “Penca” (Projeto Jardim de esculturas / MAM - SP, 2023); “Outras naturezas” (Casa de Cultura do Parque, SP, 2023); “Experimentos com o acaso” (França, 2016); “Chão” (SP, 2015); “Alexandre Brandão - II Mostra do CCSP” (SP, 2014); “Efeito sem causa” (SP, 2013); “Quase sombra” (SP, 2012) e “Entrebranco” (BH, 2006). Em 2010 foi premiado na “5ª Bienal Interamericana de Videoarte” (EUA); em 2014 com a “Bolsa de Residência Artística ICCo / SP-Arte - Residency Unlimited” (NY/EUA) e em 2015 com a “6ª Bolsa Pampulha”, programa de residência do Museu de Arte da Pampulha (BH/MG). Indicado ao Prêmio Pipa 2014 e 2019. Em 2017, integrou o programa de residência JACA (MG) e Pivô Pesquisa (SP) em 2018.
C. L. Salvaro (Curitiba, 1980)
Sua prática artística investiga as relações entre materiais, objetos, arquitetura e contexto por meio de esculturas, instalações e intervenções espaciais. Partindo frequentemente de situações preexistentes, seus trabalhos reorganizam elementos construtivos, objetos cotidianos, resíduos, vegetação e infraestruturas em arranjos que tornam perceptíveis seus processos de transformação. Os corpos escultóricos preservam os vestígios dessas operações como parte de sua constituição.
Entre suas exposições individuais destacam-se “lapso” (2024), “enquanto” (2023), “dejavu” (2023), “antes de afundar, flutua” (2021) e “eira alheia” (2018). Participou da “13ª Bienal do Mercosul” (2022), da “Frestas – Trienal de Artes” (2017), da “6ª Bienal Internacional de Curitiba” (2011) e da “Manif d’art 5 – Biennale de Québec” (2010). Recebeu o Impact Award da Eckenstein-Geigy Foundation durante a Liste Art Fair Basel (2021) e o Prêmio Foco Bradesco ArtRio (2017), além de participar de residências artísticas em Hangzhou (China), Seul (Coreia do Sul), Lincoln (Argentina), Valparaíso (Chile), Belo Horizonte (Brasil) e Serra da Capivara (Brasil), entre outras. Seu trabalho integra coleções como o MAR, o MAC-PR, o MuMA, o MUPA, a CAL/UnB e By Art Matters Museum.
PARASITU
por Giovanna Bragaglia
parasitu [latim antigo]: pronúncia poética da palavra latina para parasita, resgatada do uso em que a consoante final (s) desvanecia na fala. Ser que habita outro organismo (o hospedeiro) e dele extrai o necessário para subsistir.
RELATÓRIO DE OBSERVAÇÃO
data: 11.02.2026
Surgimento de corpo estranho com alastramento radicular no quadrante inferior da janela de orlando (visão do interior para o exterior). Estrutura plana, de traço preto, opaco e denso (aprox. 1 cm de largura). Sem brilho ou reflexo. O vidro e a paisagem que o atravessa atuam como hospedeiros.
data: 07.05.2026
Período de latência e reestruturação interna. O pigmento preto desenha-se pela superfície, deixando de ser mera intervenção visual para se comportar como organismo adaptativo.
data: 27.07.2026
Aceleração. A estrutura inicial expande suas ramificações e registra-se o surgimento de dois novos focos secundários em pontos distintos do suporte de vidro.
data: 31.07.2026
As projeções gráficas do vidro começam a afetar a luz, a sombra e o ar de orlando. A rugosidade da matéria sintética responde ao ambiente, estabelecendo uma área de atração para outras contaminações.
data: 07.09.2026–17.09.2026
Após um período de incubação — favorecido por um ar rarefeito e pela intensa variação de temperatura e umidade —, a infecção voltou a alastrar-se em ritmo vertiginoso. Durante os dias da denominada montagem, em atividade diurna e noturna, o contágio cresceu exponencialmente, tomando diferentes formas e proporções. Outros organismos, conhecidos como esculturas ou peças tridimensionais, invadiram e integraram-se a alguns e por alguns elementos estruturais de orlando.
Seguimos em observação e monitoramento contínuo até 30.10.2026.
DIAGNÓSTICO CURATORIAL
A Terceira Natureza (ou como sobreviver em meio à bagunça que temos feito)
“O que você faz quando seu mundo começa a ruir? Eu saio para caminhar e, se tiver muita sorte, encontro cogumelos.” — Anna Tsing¹
O que começou em fevereiro deste ano como um incipiente traço escuro e opaco no vidro da janela de orlando — intervenção de Alexandre Brandão — seguiu em alastramento silencioso ao longo dos meses, atraindo outros organismos e modos de existir para a sala expositiva. A partir de materiais sintéticos que mimetizam ou confrontam a natureza, a exposição-instalação de Alexandre Brandão e C. L. Salvaro ressoa com o pensamento da antropóloga Anna Tsing sobre a terceira natureza, ao investigar como a vida, a matéria e novas formas de simbiose emergem e se reconfiguram apesar das ruínas do capitalismo moderno, causador da destruição em larga escala de paisagens e ecologias.
Logo no início da exposição, deparamo-nos com uma espécie sintética que brota da caixa de tomada da sala — uma presença similar ao pequeno Pinus contorta relatado por Tsing ao brotar no solo rochoso de pedra-pome, onde nada parecia capaz de crescer².
Como aponta a antropóloga Anna Tsing, é do colapso das certezas que somos obrigados a explorar as ruínas que se tornaram a nossa casa coletiva – e da qual talvez lidemos como meros hóspedes:
“As paisagens globais estão hoje repletas desse tipo de ruína. Ainda assim, esses lugares podem estar cheios de vida, apesar dos anúncios de sua morte; campos de lavoura ou extração abandonados às vezes produzem novas vidas multiespécies e multiculturais. Em um estado global de precariedade, não temos outra opção senão buscar vida nessas ruínas.”³
Abaixo do solo, corpos fúngicos se estendem em meadas e redes invisíveis muito antes de produzirem cogumelos⁴. Assim, a Colônia inicial de Brandão funciona como esse anúncio subterrâneo: uma promessa de que a matéria gasta pode se tornar solo fértil para futuros imprevisíveis — como achar os ecossistemas das epífitas pelos fios entre postes na cidade, onde não imaginaríamos poder existir vida.
Operando como organismos saprófitas — seres que absorvem a matéria em decomposição para transformá-la em corpo vivo —, ambos os artistas parasitam o espaço de orlando, mas sem destruí-lo. O que extraem do hospedeiro é devolvido como presença. Salvaro constrói invólucros, microambientes e estruturas de sobre-vivência: o capacete calcificado (símbolo da engrenagem violenta do trabalho anônimo que guarda a vida do trabalhador), as garrafas plásticas abrigando colônias de corais e a instalação que envolve a caixa do ar-condicionado numa estufa, alimentada pelo vapor de um umidificador-escultura. Nasce e vive aqui uma ecologia de possíveis novos biomas que abriga inclusive a presença enigmática dos ovos, ou do que está por vir: o futuro de um passado contido no presente (“Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo”, escreveu Clarice Lispector)⁵.
Em vez de lamentar a erosão do meio, PARASITU volta seu olhar para a resiliência que surge nas frestas, cultivando a simbiose entre o natural e o artificial. A exposição transforma orlando em um ecossistema vivo, onde diferentes formas de vida se sobrepõem e transformam a arquitetura, vivendo além da carcaça arquitetônica.
Afinal, “em meio à bagunça que temos feito”, como insiste Anna Tsing, “a vida arrasa e contamina”⁶, como canta Gal.
NOTAS
¹ TSING, Anna. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. Tradução de Jorge Menna Barreto. São Paulo: n-1 edições, 2022, p. 39.
² A cena faz alusão ao início da jornada de Anna Tsing em busca do cogumelo matsutake no Japão. Em suas primeiras expedições, a antropóloga observa como o Pinus contorta — uma espécie de pinheiro — consegue se fixar em solos devastados de pedra-pome, criando as condições para que o matsutake e outros organismos fúngicos possam emergir (TSING, 2022).
³ TSING, Anna. Op. cit., p. 46.
⁴ Ibidem, p. 31.
⁵ LISPECTOR, Clarice. "O ovo e a galinha". In: A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. Ibidem, p. 64.
⁶ Da canção Bloco do Prazer (Moraes Moreira e Fausto Nilo), interpretada por Gal Costa no álbum Fantasia (1981).